{"id":45,"date":"2020-03-01T16:28:20","date_gmt":"2020-03-01T16:28:20","guid":{"rendered":"https:\/\/clunyportugal.com\/ppsjc\/?page_id=45"},"modified":"2020-03-02T23:46:41","modified_gmt":"2020-03-02T23:46:41","slug":"ana-maria-javouhey","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/clunyportugal.com\/ppsjc\/ana-maria-javouhey\/","title":{"rendered":"Ana Maria Javouhey"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\">Fundadora da Congrega\u00e7\u00e3o de S. Jos\u00e9 de Cluny<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery columns-1 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"647\" height=\"523\" src=\"https:\/\/clunyportugal.com\/ppsjc\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/amj-1.jpg\" alt=\"\" data-id=\"308\" data-full-url=\"https:\/\/clunyportugal.com\/ppsjc\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/amj-1.jpg\" data-link=\"https:\/\/clunyportugal.com\/ppsjc\/ana-maria-javouhey\/amj-1\/#main\" class=\"wp-image-308\" srcset=\"https:\/\/clunyportugal.com\/ppsjc\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/amj-1.jpg 647w, https:\/\/clunyportugal.com\/ppsjc\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/amj-1-300x243.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 647px) 100vw, 647px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-background has-drop-cap has-very-light-gray-background-color\">Tinha eu 10 anos quando a Revolu\u00e7\u00e3o francesa rebentou no meu Pa\u00eds. Com essa idade, para espanto de meu pai, que via em mim apenas uma crian\u00e7a travessa, alegre, cheia de fantasia e amiga da brincadeira, fiz a minha primeira Comunh\u00e3o. Desde esse dia, considerei-me consagrada a Deus e \u00e0s Suas obras.<\/p>\n\n\n\n<p>Nascera a 10 de Novembro de 1779 em Jallanges \u2013 C\u00f5te d\u2019Or -, numa fam\u00edlia de camponeses abastados e de costumes crist\u00e3os solidamente enraizados. Os meus pais baptizaram-me no dia seguinte, na Igreja de Seurre, sob a protec\u00e7\u00e3o de S. Martinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde fui viver para Chamblanc, na regi\u00e3o de Dijon.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong><\/strong><\/em>A minha adolesc\u00eancia foi vivida com os ventos fortes da Revolu\u00e7\u00e3o. O Estado Republicano intrometia-se a governar a Igreja: os Padres eram perseguidos, as igrejas saqueadas. Havia espi\u00f5es por toda a parte. Vivia-se um clima de terror&#8230; e que fazer? N\u00e3o podia ceder ao medo. A F\u00e9 n\u00e3o podia morrer\u2026 Dava catequese \u00e0s crian\u00e7as da par\u00f3quia, escondia em casa dos meus pais os padres perseguidos pelo poder pol\u00edtico e, de lanterna na m\u00e3o, pela noite dentro, conduzia os padres \u00e0 cabeceira dos doentes e moribundos. Corria a toda a pressa at\u00e9 \u00e0 igreja, a fim de salvar os paramentos e os vasos sagrados das igrejas em chama.<\/p>\n\n\n\n<p>As minhas proezas e a exuber\u00e2ncia do meu temperamento deram que falar na aldeia e os elogios despertaram em mim o gosto de agradar, de me adornar, de viver os meus romances, de ter o meu namorado, o Pedro\u2026 Mas eis que ressurge o despertar da minha voca\u00e7\u00e3o!<br><br>O Padre Ballanche, alojado clandestinamente e vestido de qualquer maneira, sa\u00eda \u00e0 noite para visitar algumas fam\u00edlias da par\u00f3quia, sem nunca saber se bateria ou n\u00e3o a boa porta!\u2026 Em nossa casa nunca nos cans\u00e1vamos de o ouvir. Ao escut\u00e1-lo, sentia que estava pronta para tudo. Seria capaz de transformar a casa paterna em capela de socorro\u2026 Iria bater a todas as portas da aldeia, se necess\u00e1rio fosse&#8230; Embora o meu pai, enquanto administrador municipal, me dissesse continuamente:<br><br>&#8211; \u201cN\u00e3o quero hist\u00f3rias com autoridades. Percebeste, Nanette?\u201d<br><br>Os actos de culto recome\u00e7aram em Chamblanc. Nos dias e horas combinados, acompanhava o P. Ballanche \u00e0 Igreja improvisada, onde tudo estava preparado para a missa: as janelas tapadas com os cortinados das camas, a mesa coberta com um len\u00e7ol, as h\u00f3stias feitas no forno da casa&#8230; E todo o povo reunido e bem escondido para a celebra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando avistava um grupo de espi\u00f5es que se dirigiam para inspeccionar a casa, inventava hist\u00f3rias e artimanhas, oferecendo uma bebida fresca aos perseguidores, a fim de os reter, enquanto as pessoas se dispersavam.<br><br>Com tudo isto, algo se passou em mim. Calaram-se os encantos f\u00fateis da minha adolesc\u00eancia. Havia uma convic\u00e7\u00e3o que falava mais alto: o Evangelho, o exemplo do Padre Ballanche e a sua coragem em arriscar a vida pela Igreja de Jesus.<br><br>O meu pai dizia que n\u00e3o me reconhecia, sobretudo quando tinha necessidade de me ausentar para fazer sil\u00eancio dentro de mim ou exprimia o desejo de ter um cantinho para rezar, mas que fosse s\u00f3 meu. Sem perceber, mas pelo muito amor que me tinha, o meu pai construiu-me um pequeno orat\u00f3rio com um altar de pedra e uma est\u00e1tua de Santa Ana.<\/p>\n\n\n\n<p>As minhas irm\u00e3s acompanhavam-me neste apelo irresist\u00edvel de ouvir e seguir Deus, por isso o pai come\u00e7ava a perceber que tinha \u201cperdido as filhas&#8221;.<br><br>Sentia que n\u00e3o havia tempo a perder. Deus fazia-se ouvir\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Pegava no tambor do meu pai e percorria as ruas da aldeia a chamar as crian\u00e7as e os jovens para a catequese. Toda a juventude de Chamblanc corria atr\u00e1s do meu porta-bandeira. Como n\u00e3o queria expor o meu pai com a minha atitude, resolvi colocar, \u00e0 entrada da granja, um crucifixo de chumbo e uma pia de \u00e1gua benta. Os fardos de palha funcionavam como bancos e a\u00ed dava as aulas de catequese. Sentia-me na minha voca\u00e7\u00e3o. Era a minha paix\u00e3o, mas tamb\u00e9m o meu tormento, sobretudo quando o meu pai me imaginava a tomar conta dos criados na quinta. N\u00e3o queria enganar os meus pais ou desobedecer-lhes&#8230; mas n\u00e3o conseguia resistir a Deus.<br><br>Que felicidade a minha, quando as igrejas foram abertas ao culto e eu pude apresentar ao Padre Ballanche um bom grupo de catec\u00famenos. Sentia-me escolhida por Deus para uma miss\u00e3o bem precisa.<\/p>\n\n\n\n<p>O meu desafio estava lan\u00e7ado, mesmo que o meu pai se alarmasse com o bisbilhotar das pessoas da aldeia: \u201ca filha do nosso presidente descarrila\u201d. Vi que n\u00e3o podia guardar por mais tempo o segredo. O pai precisava de saber que j\u00e1 estava consagrada a Deus no \u00edntimo da minha alma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como sabia que o pai n\u00e3o aguentaria o embate desta verdade, resolvi comunicar com ele atrav\u00e9s de cartas, fazendo da minha irm\u00e3 Claudina, de 8 anos, o meu mais fiel carteiro. Ainda recordo algumas frases de uma carta que me soube a um documento:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cMeu querido pai, todas as suas recusas n\u00e3o me fazem desanimar. Creio que seria preciso arrancarem-me o cora\u00e7\u00e3o para me tirarem o desejo da vida religiosa. Reconhe\u00e7o que \u00e9 um grande sacrif\u00edcio que vai fazer, mas creia que n\u00e3o ser\u00e1 menor para mim. Evite o desgosto que um dia poderia ter de n\u00e3o permitir aos seus filhos de seguirem a sua voca\u00e7\u00e3o. Prometi a Deus dedicar-me inteiramente ao servi\u00e7o dos doentes e \u00e0 instru\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. O dia de S. Martinho foi o que escolhi para esse acto. Queria ouvir de meu pai: \u201cMinha filha, faz o que o Senhor te inspira\u201d.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Com muita dor, o meu pai, apoiado pela m\u00e3e, foi-se conformando. Assim, na noite do 11 de Novembro de 1798, em casa do meu irm\u00e3o Est\u00eav\u00e3o, na presen\u00e7a de toda a fam\u00edlia, o Padre Ballanche celebrou a Missa e, na frescura dos meus 19 anos, pronunciei o acto de consagra\u00e7\u00e3o dizendo a Deus que Lhe pertencia sem reservas.<br><br>Mas, no concreto, o que queria Deus de mim? Sempre \u00e0 procura da Vontade de Deus, fiz uma experi\u00eancia nas Irm\u00e3s da Caridade, em Besan\u00e7on. Preparava-me para receber o h\u00e1bito e, de repente, senti-me mergulhada num abismo de tristeza. Foi a\u00ed que tive uma vis\u00e3o premonit\u00f3ria: ao despertar, julguei ver \u00e0 minha volta crian\u00e7as de cor, trazendo aos ombros p\u00e1s e enxadas e outros utens\u00edlios agr\u00edcolas. Ao mesmo tempo, pareceu-me ouvir uma voz:&nbsp;<strong>\u201cestes s\u00e3o os filhos que Deus te d\u00e1. Eu sou Santa Teresa, a protectora da tua Ordem\u201d.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu nunca tinha ouvido falar de pretos, de crian\u00e7as de cor\u2026&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Regressei a Chamblanc, para decep\u00e7\u00e3o de meus pais, com a certeza interior que era chamada por Deus a fundar uma Ordem Religiosa. Quando? Como? Era o segredo de Deus. O Padre Ballanche aconselhou-me entretanto a instalar-me fora da minha terra para n\u00e3o perturbar mais o meu pai.<\/p>\n\n\n\n<p>Recorri a Dom de Lestrange, abade da Trapa em Val-Sainte na Sui\u00e7a, homem espiritual com o dom do discernimento e muito admirado pelo meu pai. Era pessoa de grande influ\u00eancia e prest\u00edgio; o \u00fanico religioso que Napole\u00e3o consentia receber e ouvir. Este monge foi a Chamblanc e convenceu o meu pai a instalar-me em Seurre. A\u00ed, acolhia e ensinava crian\u00e7as pobres. Mais tarde, fui instalar-me em D\u00f4le, numa escola, com as minhas duas irm\u00e3s.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com o cora\u00e7\u00e3o angustiado, dei mais um passo \u00e0 procura da Sua Vontade sobre mim e dali parti para a Trapa em Riedra, na Sui\u00e7a. No mesmo dia o \u201chumor de Deus\u201d chamou Pedro a ser monge trapista.<br><br>Preparei-me para tomar o h\u00e1bito nas Irm\u00e3s da Trapa, com o nome de Ir. Faustina. E, mais uma vez, senti que n\u00e3o era ali. Era chamada a fundar uma Congrega\u00e7\u00e3o com a confirma\u00e7\u00e3o do director espiritual. Decidida, regressei a Chamblanc, com toda a riqueza da experi\u00eancia da Trapa e o apoio de Dom de Lestrange.<\/p>\n\n\n\n<p>Parti para Souvans, perto de D\u00f4le e a\u00ed abri uma escola que acolhia \u00f3rf\u00e3os. Os dias eram dif\u00edceis e as reservas chegavam ao fim; n\u00e3o tinha nada para dar de comer \u00e0s crian\u00e7as. Muito perturbada, corri para a igreja e bati \u00e0 porta deste sacr\u00e1rio a pedir socorro.<\/p>\n\n\n\n<p>As crian\u00e7as estavam a rezar quando se ouviu uma voz l\u00e1 fora: \u201cMenina Javouhey, est\u00e3o a perguntar por si\u201d. Sa\u00ed e no limiar da porta fiquei sem fala: era o meu pai e o meu irm\u00e3o Est\u00eav\u00e3o que chegavam com uma carro\u00e7a cheia de provis\u00f5es. Lancei-me nos bra\u00e7os de meu pai que me diz: \u201dPois \u00e9, Nanette, nesta noite n\u00e3o consegui pregar olho. Vi-te infeliz.\u201d Deus estava comigo!<\/p>\n\n\n\n<p>As prova\u00e7\u00f5es continuavam e Dom de Lestrange enviou-me para Choisey que oferecia mais possibilidades. Entretanto o pai Javouhey cansava-se de tantas experi\u00eancias. Foi a Choisey e trouxe as suas tr\u00eas filhas para casa, assim como as nossas colaboradoras e as crian\u00e7as, cedendo-nos metade da casa para as nossas \u201cfantasias\u201d. T\u00ednhamos o&nbsp;<em>&#8220;Convento de Baltazar&#8221;<\/em>&nbsp;e a partir da\u00ed, come\u00e7ava a ansiar pela aprova\u00e7\u00e3o da nossa pequena comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Corriam rumores de que o Papa Pio VII faria uma paragem em Ch\u00e2lon-sur- Sa\u00f4ne, na sua viagem a Paris, para a sagra\u00e7\u00e3o do Imperador Napole\u00e3o. Ent\u00e3o fui a Ch\u00e2lon com as minhas Irm\u00e3s e obtivemos uma audi\u00eancia e a b\u00ean\u00e7\u00e3o do Papa, que me disse:&nbsp;<em>\u201cCoragem, minha filha, Deus realizar\u00e1, por teu interm\u00e9dio, muitas coisas para a Sua gl\u00f3ria\u201d.<br><\/em><br>Com este acontecimento, come\u00e7am a chegar a Chamblanc algumas jovens de Ch\u00e2lon que queriam ver como funcionava a nossa pequena comunidade. De regresso, disseram ao p\u00e1roco que n\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es para se viver em Chamblanc e depressa nos pediu, com a autoriza\u00e7\u00e3o do Bispo, para irmos para a sua par\u00f3quia de Ch\u00e2lon, a fim de nos ocuparmos das crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>A comunidade de S. Jos\u00e9 foi inaugurada a 20 de Agosto de 1806, dia de S. Bernardo, patrono da Trapa. Desejei escolher este santo como patrono mas o Padre de Ch\u00e2lon disse-me que Santa Teresa escolhia S. Jos\u00e9 para patrono das suas comunidades. Ent\u00e3o, a partir daqui, come\u00e7\u00e1mos a ser conhecidas como Filhas de S. Jos\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>E a 12 de Maio de 1807 nascia a Congrega\u00e7\u00e3o com a tomada de h\u00e1bito das quatro filhas Javouhey e ainda cinco jovens que assumiram o mesmo compromisso, consagrando-se a Deus na Igreja de Ch\u00e2lon-sur-Sa\u00f4ne.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1821, estabele\u00e7i em Cluny a Casa-M\u00e3e do Instituto, que se chamar\u00e1 para sempre \u201cS. Jos\u00e9 de Cluny\u201d. E ano ap\u00f3s ano Deus foi aben\u00e7oando a sua obra com voca\u00e7\u00f5es e novos campos de miss\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fundadora da Congrega\u00e7\u00e3o de S. Jos\u00e9 de Cluny Tinha eu 10 anos quando a Revolu\u00e7\u00e3o francesa rebentou no meu Pa\u00eds. Com essa idade, para espanto de meu pai, que via em mim apenas uma crian\u00e7a travessa, alegre, cheia de fantasia e amiga da brincadeira, fiz a minha primeira Comunh\u00e3o. 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